PARASHÁ DA SEMANA

Toda semana, os ensinamentos da porção semanal da Torá.

A sabedoria de mais de 3.300 anos nos ajudando em nosso cotidiano.

O CALOR DA FRATERNIDADE

 IOM KIPUR 5763 (20 de Setembro de 2002)

Fazia um frio terrível. O vento parecia ter agulhas, espetando todos que tinham coragem de enfrentá-lo. No meio da tarde, as ruas estavam quase desertas, e não se ouvia nem mesmo um único pássaro cantando. Os pardais se escondiam em todos os buracos e frestas que encontravam. Os pombos se encolhiam uns contra os outros sob os beirais. Muitos pássaros caíam mortos, congelados.

Sob o beiral da varanda de uma casa, abrigava-se um bando de pombos, coladinhos uns nos outros, tentando se aquecer, porém sem muito sucesso. Alguns pardaizinhos, que não haviam conseguido encontrar abrigo, viram o bando de pombos e vieram voando até a varanda.

– Queridos pombos – falaram os pardais – podemos ficar com vocês? Aí está tão quentinho.

– Desculpem-nos, mas suas penas estão cheias de gelo. Não podemos receber vocês aqui. Nós também estamos quase congelando – murmuraram os pombos, desconsolados.

– Estamos quase morrendo, e deve estar quentinho debaixo de suas asas, pombinhos. Por favor, nos deixem pousar aí! Somos tão pequenos e sentimos tanto, tanto frio!

– Venha – disse um pombo, e um pardalzinho trêmulo se acomodou debaixo da asa dela.

– Venha! Venha! – disse outro pombo de bom coração, e outro, e mais outro, até que metade do bando de pombos estava abrigando, cada qual, um pardalzinho debaixo da asa quase congelada. Os outros pombos diziam: “Não sejam bobos! Por que arriscam a vida para proteger esses pardais que nada valem?”

– Ah, eles são tão pequeninos, estão com tanto frio, coitadinhos – responderam os pombos bondosos – Muitos vão morrer nessa noite cruel, muitos de nós também. Enquanto temos vida, vamos compartilhar com os que tem menos que nós.

O dia ficava cada vez mais frio. O restinho de sol se escondeu por trás das nuvens, e o vento começou a soprar com mais força. Na casa, os pombos e os pardais esperavam a morte.

Uma hora depois do pôr-do-sol, um homem chegou à varanda da casa. Fechou com força a porta ao entrar e, quando a porta bateu, sua filha viu um pombo morto despencar do beiral e cair no chão da varanda.

– Olha, papai – gritou, surpresa – Um pombinho congelado no chão!

Quando o pai saiu para pegar a avezinha morta, viu o resto do bando encolhidinho sob o beiral. Não conseguiam mais se mover, não conseguiam nem mesmo piar. O homem pegou um por um e trouxe-os para a sala. Pouco depois, metade dos pombos arrulhava, levantando as asas, voltando à vida. E debaixo de cada asa que se levantava, saia um pardal.

– Olha, papai! – gritou a filha – Todas as pombinhas que voltaram à vida tinham um pardalzinho perto do coração!

Levantaram as asas de todos os pombos que ainda não tinham revivido. Não acharam nenhum pardal.

O vento lá fora soprava cada vez mais frio, cada vez mais cortante, mas os pombos que tinham dado abrigo aos pardais gelados sob as asas trêmulas viviam, para saudar o sol dos dias do porvir.

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Iremos passar por Yom Kipur, um dia de muitas rezas, muita reflexão, e de renovação. E o que isso influencia nos nossos atos daqui para frente? Quando temos um carro velho, amassado e riscado, não cuidamos bem dele, não nos importamos com um risco ou um amassado a mais. Mas e quando se trata de um carro novinho em folha, recém saído da concessionária? Cuidamos de cada pequeno risco, de cada sujeirinha que possa estragá-lo, de cada detalhe. Assim está a nossa alma: nova, limpa e purificada. Devemos ter cuidado com cada pequena transgressão, que possa voltar a sujá-la. E da mesma forma que um carro necessita de cuidados para manter a sua beleza e o seu bom funcionamento, também nossa alma precisa de cuidados: as Mitzvót e nossos atos de bondade, que protegem a nossa alma da nossa má-inclinação.

Portanto, devemos começar a cuidar de nossa alma nova desde já. Como? Podemos começar nos preocupando um pouco mais com o próximo, dando mais atenção às necessidades dos outros. Quando vamos pegar uma cadeira para nós, não nos custa nada pegar mais uma, para um companheiro que vai necessitar. Ou quando vamos tomar água, podemos trazer um copo para outra pessoa que também possa estar com sede. São pequenos atos, mas que podem trazer muita Luz para o mundo. Pois assim ensina o Pirkei Avót (Ética dos pais): “Uma Mitzvá traz outra Mitzvá”, e assim, em cadeia, estaremos fazendo bem para o mundo como um todo. Se parássemos para pensar em quanto um sorriso pode fazer bem para as pessoas à nossa volta, e quanto nos custa tão pouco este tipo de ajuda, nunca mais deixaríamos de fazer. Todos estes atos de bondade são chamados de Chessed, que é um dos pilares do judaísmo.

 Muitos confundem Chessed com Tzedaká (dar uma ajuda monetária aos menos favorecidos). Chessed é maior que Tzedaká em três pontos:

1) A Tzedaká só pode ser feita com o dinheiro, enquanto um ato de Chessed pode ser feito inclusive com o nosso corpo (como por exemplo, dizer uma palavra amiga, ou dar um abraço consolador).

2) A Tzedaká somente pode ser feita com um pobre, enquanto Chessed pode ser feito com ricos e pobres (pois muitas pessoas ricas necessitam de uma mão amiga em horas de dificuldades, e muitas vezes são mais infelizes do que pessoas pobres).

3) A Tzedaká somente pode ser feita com pessoas vivas, enquanto Chessed pode ser feito inclusive com os mortos (por exemplo, rezando pela elevação da alma de um falecido, ou cumprindo a Mitzvá de acompanhar um enterro).

Os atos de Chessed são a essência do nosso povo, e um dos motivos que nos possibilitou sempre vencermos os nossos inimigos, mesmo diante das piores ameaças. O povo judeu é como um corpo só: quando uma parte sente dor, as outras também são afetadas. E que saibamos que a Chessed não apenas nos garante uma boa vida no Olam Hazé (neste mundo), mas também garante a nossa vida no Olam Habá (Mundo Vindouro), nos dando a oportunidade de “saudar o sol dos dias do porvir”.

 Que possamos começar este ano fazendo muito Chessed, mantendo nossa alma limpa de transgressões, e dando, ao menos um sorriso, para todos aqueles que necessitam de nossa ajuda.

 “A alegria que trazemos aos outros volta, em uma alegria silenciosa, aos nossos próprios corações”

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Flávia Diamandi Kauffman
    set 28, 2011 @ 14:00:29

    Shaná Tová Umetuká Para todos do Biniam Olam com mta Saude,Paz e Sabedoria
    Que possamos ser inscritod e selados no livro da vida

    Responder

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